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SÓCRATES, um pedreiro antes de se dedicar à filosofia

🎯 Seu trabalho e suas ideias tornaram-se a fundação da filosofia ocidental.

Estatua de Sócrates
Sócrates nasceu em Atenas, na Grécia, por volta de 469 a.C. e morreu em 399 a.C. Enquanto os filósofos pré-socráticos examinavam o mundo natural, ele enfatizou a experiência humana, concentrando-se na moralidade individual, questionando o que faz uma vida boa e discutindo aspectos sociais e políticos. Seu trabalho e suas ideias tornaram-se a fundação da filosofia ocidental. Embora Sócrates seja considerado um dos homens mais inteligentes que já existiram, nunca escreveu nenhum de seus pensamentos e o que sabemos sobre ele é baseado no trabalho de seus alunos e de seus contemporâneos (principalmente, os trabalhos de Platão, Xenofonte e Aristófanes).

Como os relatos de terceiros (que, com frequência, inventam histórias) diferem entre si, de fato, não sabemos muito sobre os ensinamentos de Sócrates. Isso é conhecido como o “problema socrático”. Dos textos de terceiros, conseguimos reunir algumas informações. Ele era filho de um pedreiro e de uma parteira; teve uma formação educacional básica grega; não tinha uma aparência física muito bonita (em uma época em que a beleza exterior era muito importante); serviu o exército durante a guerra do Peloponeso; teve três filhos com uma mulher bem mais jovem do que ele e vivia na pobreza. Sócrates deve ter sido pedreiro antes de se dedicar à filosofia.

O único detalhe, porém, que está muito bem documentado é a morte de Sócrates. Enquanto ainda estava vivo, o estado de Atenas começou a declinar. Depois de perder humilhantemente a guerra do Peloponeso para Esparta, os atenienses tiveram uma crise de identidade, tornando-se fixados na beleza física, em ideias de saúde e bem-estar e na idealização do passado. Como Sócrates era um crítico aberto desse estilo de vida, cultivou muitos inimigos. 

Em 399 a.C, Sócrates foi preso e conduzido a julgamento sob a acusação de não ser religioso e de corromper os jovens da cidade. Ele foi considerado culpado e sentenciado à pena de morte por envenenamento. Em vez de se retirar em exílio (o que podia fazer), Sócrates tomou o copo de cicuta sem nenhuma hesitação.

A CONTRIBUIÇÃO DE SÓCRATES PARA A FILOSOFIA

Uma frase sempre atribuída a Sócrates é: “Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. Ele acreditava que, para se tornar sábio, o indivíduo deve ser capaz de compreender a si mesmo. Para Sócrates, as ações de uma pessoa estavam diretamente relacionadas à sua inteligência e à sua ignorância. Ele propunha que as pessoas desenvolvessem o ego em vez de concentrar-se nos objetos materiais e procurava entender a diferença entre agir bem e ser bom. Foi por causa dessa sua maneira nova e exclusiva de abordar o conhecimento, a consciência e a moralidade que Sócrates mudou para sempre a filosofia.

O MÉTODO SOCRÁTICO

Talvez Sócrates seja mais famoso por causa de seu método. Pela primeira vez descrito por Platão nos Diálogos socráticos, Sócrates e um aluno tinham uma discussão sobre um tema em particular e o mestre fazia uma série de perguntas para descobrir a força condutora por trás da formação das crenças e dos sentimentos da outra pessoa. Assim, ele se aproximava da verdade. Ao fazer continuamente esses questionamentos, era capaz de expor as contradições na forma de pensar do indivíduo e assim chegava a conclusões mais sólidas.

Sócrates utilizava o elenchus[[1]] o método pelo qual refutava as afirmações da outra pessoa com as seguintes etapas:

1. Um indivíduo faz uma afirmação para Sócrates, que tenta refutá-la. Ou Sócrates pode fazer uma pergunta para a outra pessoa como: “O que é a coragem?”.

2. Assim que obtém a resposta, Sócrates pensa em um cenário em que a resposta não funciona e pede que o interlocutor assuma que sua afirmação original era falsa. Por exemplo, se a outra pessoa descreveu coragem como “a resistência da alma”, Sócrates pode refutar dizendo que “a coragem é algo positivo”, enquanto “a resistência ignorante não é positiva”.

3. A outra pessoa concorda com esse argumento e Sócrates, então, muda a afirmação para incluir a exceção à regra.

4. Sócrates prova que a afirmação do indivíduo é falsa e que a negação é, de fato, verdade. Como a outra pessoa continua a alterar suas respostas, Sócrates segue refutando e, dessa maneira, as respostas do indivíduo aproximam-se mais da verdade real.

🕛 O MÉTODO SOCRÁTICO HOJE

O método socrático ainda é bastante utilizado hoje, principalmente nas faculdades de direito dos Estados Unidos. Primeiro, pede-se ao aluno que resuma o argumento de um juiz. Em seguida, pergunta-se a ele se concorda com aquele argumento. O professor, então, atua como “advogado do diabo”, levantando uma série de questões para fazer com que o estudante defenda sua decisão.

Ao aplicar o método socrático, os estudantes de direito podem começar a pensar criticamente, usando a lógica e a razão para criar seus argumentos e também procurar e identificar as falhas em seus posicionamentos.

Referências:KLEINMAN, Paul. Tudo o que você precisa saber sobre Filosofia: de Platão e Sócrates. Tradução: Cristina Sant'Anna. São Paulo: Editora Gente, 2014.




[1]Elenchus socrático — uma proposição aceita pelo interlocutor é testada diante do conjunto de suas crenças com o objetivo de verificar a consistência do todo. Fazendo perguntas, Sócrates buscava determinar se a primeira afirmação de seu interlocutor era consistente ou inconsistente com as posteriores. Também pode-se falar em contraprova ou refutação lógica. (N.T.)

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ARISTÓTELES e a criação da lógica

🎯 Foi em Atenas que ele ingressou na Academia, permanecendo lá pelos próximos vinte anos como aluno e colega de Platão.

ARISTÓTELES(384-322 a.C.) - A sabedoria começa pela compreensão de si mesmo Aristóteles nasceu por volta de 384 a.C.
 
Busto de Aristóteles
👉 OS PAIS

Embora pouco se saiba a respeito de sua mãe, o pai dele era médico na corte do rei macedônio Amintas II (a conexão e afiliação à corte macedônia continuariam a ter um papel importante na vida dele). O pai e a mãe de Aristóteles morreram quando ele ainda era jovem e, com 17 anos, seu tutor o enviou para Atenas em busca de uma educação superior. Foi em Atenas que ele ingressou na Academia, permanecendo lá pelos próximos vinte anos como aluno e colega de Platão.

Quando Platão morreu em 347 d.C., muitos acreditaram que Aristóteles assumiria o lugar dele como diretor da Academia. Naquele momento, porém, como já discordava de diversos pontos do trabalho de Platão (por exemplo, discordava da Teoria das Formas), ele não foi convidado para o cargo.

Em 338 d.C., ele retornou à Macedônia e começou a trabalhar como tutor do filho do rei Felipe II, que tinha 13 anos e viria a ser chamado de Alexandre, o Grande. Quando, em 335 d.C., Alexandre tornou-se rei e conquistou Atenas, Aristóteles voltou para lá. A Academia de Platão (agora dirigida por Xenócrates) continuava a ser a maior escola da cidade e Aristóteles decidiu criar a sua, que denominou Liceu.

Com a morte de Alexandre, o Grande, em 323 d.C., o governo foi derrubado e cresceu o sentimento antimacedônio. Enfrentando acusações de impiedade, Aristóteles fugiu para Atenas a fim de evitar ser perseguido e permaneceu na ilha de Eubeia até sua morte em 322 a.C.

👉 LÓGICA

Embora Aristóteles tenha dado foco a muitos e diversos temas, uma de suas contribuições mais significativas para o mundo da filosofia e do pensamento ocidental foi a criação da lógica. Para ele, o processo de aprendizado se estabelece em três categorias distintas: teoria, prática e produção. A lógica, porém, não pertence a nenhuma dessas categorias.

Em vez disso, a lógica era um instrumento utilizado para obter conhecimento, tornando-se, dessa forma, o primeiro passo do processo de aprendizado. A lógica nos capacita a descobrir erros e estabelecer verdades.

Em seu texto, Analíticos anteriores, Aristóteles introduz a noção de silogismo, que se revelou uma das mais importantes contribuições no campo da lógica. O silogismo é um tipo de raciocínio em que a conclusão pode ser deduzida com base em uma série de premissas e suposições específicas.

Por exemplo:

Todas as pessoas gregas são humanas.
Todos os humanos são mortais.
Sendo assim, todos os gregos são mortais.

Para explicar melhor o que é um silogismo, o raciocínio pode ser sintetizado da seguinte maneira:

Se todo X é Y e todo Y é Z, então, todo X é Z.

Os silogismos são estruturados com três proposições: as duas primeiras são as premissas; a última é a conclusão. As premissas podem ser universais (usam palavras como tudo, todos ou nenhum) ou particulares (por exemplo, usando a palavra alguns) e ainda afirmativas ou negativas.

Ele, então, se propôs a criar um conjunto de regras a fim de produzir uma inferência válida. Um exemplo clássico é este:

Pelo menos uma premissa tem de ser universal.
Pelo menos uma premissa tem de ser afirmativa.
Se uma das premissas for negativa, a conclusão será negativa.

Por exemplo:

Nenhum cachorro é pássaro.
Papagaios são pássaros.
Sendo assim, nenhum cachorro é papagaio.

Aristóteles considerou que três regras se aplicavam a todos os pensamentos válidos:

1. A lei da identidade: Essa lei afirma que X é X e isso permanece verdade porque X tem certas características. Uma árvore é uma árvore porque podemos ver suas folhas, seu tronco, seus galhos, e assim por diante. Uma árvore não tem outra identidade do que a de uma árvore. Dessa forma, tudo que existe tem suas próprias características verdadeiras para si mesmo.

2. A lei da não contradição: Essa lei afirma que X não pode ser X e não ser X simultaneamente. Uma afirmação não pode ser verdadeira e falsa no mesmo momento. Se isso acontecer, surge uma contradição. Se você disser que alimentou o gato ontem e depois afirmar que não alimentou o gato ontem, há aqui uma contradição.

3. A lei do terceiro excluído: Essa lei define que uma afirmação é verdadeira ou falsa; não pode haver meio-termo. Também determina que algo é verdadeiro ou falso. Se você diz que seu cabelo é loiro, essa afirmação é verdadeira ou falsa. No entanto, filósofos e matemáticos mais recentes discutem essa lei.

💥 METAFÍSICA

Aristóteles rejeitou a Teoria das Formas de Platão. Sua resposta para compreender a natureza do ser foi a metafísica (embora ele nunca tenha usado essa palavra, preferindo chamá-la de “filosofia primeira”).

Enquanto Platão via diferença entre o mundo inteligível (feito de pensamentos e ideias) e o mundo sensível (feito do que está visível) e considerava que o mundo inteligível era a única forma verdadeira de realidade, Aristóteles achava que separar os dois mundos removia deles todo o significado. Em vez disso, Aristóteles acreditava que o mundo era feito de substâncias que podiam ser tanto forma quanto matéria ou ambos e que a inteligibilidade estava presente em todas as coisas e em todos os seres.

A Metafísica, de Aristóteles, é composta por catorze livros, que mais tarde foram agrupados pelos editores. E considerada um dos melhores trabalhos já produzidos no campo da filosofia. Aristóteles acreditava que o conhecimento era constituído de verdades específicas que a pessoa conquistava com a experiência, bem como das verdades derivadas da ciência e da arte. A sabedoria, em oposição ao conhecimento, é quando a pessoa compreende os princípios fundamentais que governam todas as coisas (essas são as verdades mais gerais) e, então, transporta essa informação para a especialização científica.

Aristóteles divide em quatro as causas dos seres como são:

1. A causa material: explica do que algo é feito.
2. A causa formal: explica qual forma algo assume.
3. A causa eficiente: explica o processo de como algo vem a ser.
4. A causa final: explica o propósito a que algo serve.

Enquanto as outras ciências podem estudar as razões das manifestações particulares dos seres (por exemplo, um biólogo estuda o humano no que se refere a ser um organismo; e um psicólogo estuda o humano como um ser com consciência), a metafísica examina, em primeiro lugar, a razão da existência do ser. Por isso, costuma ser descrita como “o estudo do ser qua ser” (“qua", em latim, para “enquanto”).

🙌 VIRTUDE

Outro trabalho de Aristóteles que causou grande impacto foi Ética. De acordo com ele, o propósito da ética é descobrir o propósito da vida. Aristóteles percebeu que a felicidade é o bem supremo e o fim perseguido por todos. Segundo ele, as pessoas buscam as boas coisas com o objetivo de atingir a felicidade, e o meio para atingi-la (e, portanto, o propósito da vida) é a virtude.

A virtude exige simultaneamente escolha e hábito. Ao contrário de outros meios para obter a felicidade, como prazer ou honra, com a virtude, quando um indivíduo toma a decisão, ela deriva de uma disposição pessoal, que é determinada pelas escolhas anteriores dessa pessoa.

Uma escolha virtuosa é, então, o meio-termo entre dois extremos. Entre agir com indiferença e frieza em relação a alguém e ser exageradamente subserviente ou atencioso, a escolha virtuosa é a afabilidade.

Para Aristóteles, a felicidade suprema é viver em contemplação intelectual e utilizar a razão (que é o que separa os humanos dos animais) na mais alta forma de virtude. No entanto, para que alguém atinja esse nível de virtude é preciso um ambiente social adequado, o que só pode ser alcançado com o governo adequado.

Referências:KLEINMAN, Paul. Tudo o que você precisa saber sobre Filosofia: de Platão e Sócrates. Tradução: Cristina Sant'Anna. São Paulo: Editora Gente, 2014.

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Primeira-dama, a Origem do termo

ORIGEM

O termo primeira-damasurgiu nos Estados Unidos. Apareceu pela primeira vez na edição de 31 de março de 1860 do “Frank Leslie’s Illustrated Newspaper”. A expressão foi usada em referência a Harriet Lane, sobrinha do presidente James Buchanan (1857-1861), que era solteiro. 

De acordo com o site National First Ladies’ Library3, o título estreou em um discurso mais adiante, quando o reverendo Stuart Robertson apresentou Rutherford B. Hayes, o 19° chefe da nação (1877-1881), e mencionou sua mulher, Lucy.

Mas chamar a mulher do presidente de primeira-damasó iria cair no gosto popular a partir da eleição de Grover Cleveland, que se casou na Casa Branca, no segundo ano de seu primeiro mandato (1885-1889), com Frances Folsom, uma jovem “atraente e popular”. O termo primeira-dama, no entanto, lá como cá não é citado na Constituição e o trabalho, de tempo integral e sem direito a descanso, tampouco é remunerado.

A função ganhou novos contornos no Brasil com a criação da Legião Brasileira de Assistência (LBA), em 1942. A iniciativa de Darcy Vargas, casada com Getúlio, fez com que a atuação da primeira-dama fosse além de mera posição de mulher do chefe da nação e anfitriã dos palácios. A LBA foi criada para ajudar as famílias dos soldados brasileiros enviados à Segunda Guerra Mundial. Com o tempo, a entidade ampliou sua atuação e passou a realizar ações de caridade aos necessitados, entre as quais a distribuição de alimentos, como leite em pó. O leite, aliás, acabaria anos depois no centro de um escândalo de corrupção na LBA envolvendo Rosane Collor, mulher de Fernando Collor, então primeiro presidente eleito pelo voto popular depois da redemocratização do país.

O sangrento conflito que se desenrolava na Europa trouxe graves consequências econômicas para o Brasil e impôs a discussão de questões sociais, com a cobrança de posicionamento do Estado. Surge aí um novo papel para as primeiras-damas. Se Getúlio se apresentava como o “pai dos pobres” durante o Estado Novo, por que sua mulher não poderia ser a “mãe dos pobres”? Nessa nova condição, a primeira-dama produziria também capital político a ser usado para lapidar a imagem do homem público e angariar votos em eleições. Inicia-se, assim, a era da assistência social como um apêndice do Estado, pelas mãos da mulher do presidente, função exercida com brilhantismo e luz própria por Darcy Vargas.

O assistencialismo, nesse sentido, só iria mudar em 1993, quando foi regulamentada a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), prevista na Constituição de 1988. Pelo menos no papel, a Loas tinha a intenção de substituir a prática com fins eleitoreiros, usada em todas as esferas do poder, por uma política real voltada a reduzir as mazelas sociais do país.

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Mas o papel de primeira-dama e da própria assistência social só seria reescrito pela antropóloga Ruth Cardoso, que pôs fim à LBA e criou e coordenou políticas públicas voltadas para a segurança alimentar e a alfabetização de jovens e adultos. Ruth, por sinal, detestava ser chamada de primeira-dama. Era uma pesquisadora e professora reconhecida no meio acadêmico internacional. E diz muito sobre a situação da mulher em nossa sociedade o fato de ela ser a única entre as 34 primeiras-damas do país que teve uma carreira intelectual independente do marido. Além de Ruth, apenas Rosane Collor e Marcela Temer concluíram cursos superiores. Rosane fez administração e afirmou, em sua autobiografia, que aproveitou as lições que aprendeu em sua gestão à frente da LBA. Marcela cursou direito numa faculdade privada em São Paulo, a Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp), já casada com Temer. Mas não prestou o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mandatório para quem deseja exercer a profissão, porque ficou grávida de Michelzinho, seu único filho.

Chama a atenção o fato de que a maioria dos presidentes tinha casos extraconjugais, sobejamente conhecidos. Desde o início da República, com o seu proclamador, que manteve romances rumorosos e públicos, até o primeiro presidente eleito após 30 anos de regime militar, que declarou em palanque ter “aquilo roxo”. Mesmo o político que venceu o candidato da ditadura no colégio eleitoral, mas morreu antes de tomar posse, mantinha a mulher e os filhos em Minas Gerais e um relacionamento de muitos anos com sua secretária, em Brasília.

🔍 Publicação: Uikisearch
Referências:
• GUEDES, Ciça; MELO, Murilo Fiuza de. Todas as mulheres dos presidentes: a história pouco conhecida das primeiras-damas do Brasil desde o início da República. Rio de Janeiro, RJ: Máquina de Livros, 2019.
• <http://www.firstladies.org/documents/art_ourfirst.pdf> Acesso: Maio/2020

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MARCELA TEDESCHI ARAÚJO

🎯 Em 15 de outubro de 2015, dez meses antes de Temer assumir a Presidência, ele e Marcela deram uma rápida entrevista ao “Programa Amaury Jr” e contaram mais uma vez sobre como se conheceram.


Primeira-dama de 31 de agosto de 2016 a 31 de dezembro de 2018
MARCELA TEDESCHI ARAÚJO - nome de
solteira.

- Nascimento: 16 de maio de 1983
- Casada com Michel Temer
- Primeira-dama de 31 de agosto de 2016 a 31 de dezembro de 2018


A comissão especial da Câmara dos Deputados que analisava o impeachment já havia aprovado, por 38 votos a favor e 27 contra, em 11 de abril de 2016, a admissibilidade do bota-fora da presidente Dilma Rousseff quando a revista “Veja” publicou o famoso perfil da então segunda-dama do país. Intitulado “Marcela Temer: bela, recatada e do lar”, foi ao ar no site da revista na data em que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara, entregou a Renan Calheiros, que presidia o Senado, os 34 volumes do processo de 12.044 páginas. Era o dia 18 de abril de 2016, uma segunda-feira. A polêmica se instalou na internet.

Muita gente viu no texto uma ode ao retrocesso nas conquistas feministas, por exaltar a submissão da moça, dedicada ao marido e à criação do único filho do casal, sem uma carreira própria. Uma enxurrada de memes tomou conta das redes sociais. Afinal, o país se encantara com aquela bela jovem, ex-modelo de l,72m, já na posse de Dilma em seu primeiro governo. Marcela roubou a cena da primeira mulher à frente da Presidência, com os longos cabelos presos numa trança e um vestido cuja parte de cima, em tom terroso, deixava os ombros e braços de fora. Na falta de uma primeira-dama, o país se contentava com a segunda. Em 2016, ela reinaugurava o primeiro-damismo, após seis anos de vacância do cargo.

Curioso é que poucas pessoas notaram que Marcela não foi ouvida para a reportagem. Sabe-se que ela sempre foi recatada graças à irmã mais nova, Fernanda Tedeschi, e que o casal pensou que estava grávido de novo, mas era rebate falso, por conta da língua comprida da tia Nina. Uma estilista diz que ela curte vestidos na altura do joelho, e um cabeleireiro de ricas e famosas, que a definiu como “educadíssima”, aproveitou para contar que Athina Onassis também é sua cliente.

Certamente a disputa política do impeachment turbinou a repercussão do material produzido pela “Veja”. Muito antes, em 15 de fevereiro de 2011, após a posse para o primeiro mandato de Dilma, a revista “TPM” produziu um alentado perfil sobre Marcela. A repórter Ariane Abdallah foi duas vezes à residência do casal Temer, no Alto de Pinheiros, bairro chique e tradicional da cidade, para entrevistar Marcela e o marido — ou Mi e Mar, como se tratam na intimidade, segundo a reportagem. Teve acesso até ao closet da então segunda-dama, e acompanhou a escolha do modelito da cerimônia, “chamado de ‘ousado’ pela consultora de moda Costanza Pascolato”.

O texto revelava que era Coco Chanel o perfume usado por ela no primeiro encontro, em 2002, num evento da campanha do à época candidato a deputado federal. De acordo com a revista, o tio Geraldo e a mãe de Marcela, a dona de casa Norma Tedeschi, a acompanharam a um comitê por sugestão do pai da então modelo, o economista Carlos Antonio Araújo, que tinha bom trânsito com os políticos de Paulínia, cidade natal da moça, no interior de São Paulo. Marcela foi formalmente apresentada a Temer. “Era um contato profissional que poderia me ajudar a dar um up na carreira (de modelo). Mas achei ele charmosão”, disse à revista “TPM”.

Dois meses depois da apresentação formal, o pai sugeriu que ela mandasse um e-mail a Temer parabenizando-o pela eleição para a Câmara. Ele telefonou para Marcela três dias depois. Numa noite daquele mesmo mês de novembro, Temer foi buscá-la para um encontro. O primeiro beijo foi 40 minutos depois. Quando ela voltou para casa, ele ligou e gritou: “Te amo, te amo, te amo”. Surgiram críticas a essas revelações quando o texto de “Veja” foi divulgado. “Eles praticamente entregaram uma mulher virgem para casar. Parece que está se falando de um casamento do Oriente Médio, em que se entrega uma menina a um velho rico. E chamam isso de conto de fadas”, disse Maria Fernanda Salaberry, do Coletivo de Mulheres da UFRGS e da Marcha das Vadias, ao jornal gaúcho “Zero Hora”, em 2016.79

Em 15 de outubro de 2015, dez meses antes de Temer assumir a Presidência, ele e Marcela deram uma rápida entrevista ao “Programa Amaury Jr” e contaram mais uma vez sobre como se conheceram. Ele disse que se encantou “logo no primeiro momento” e, olhando para a mulher, indagou: “E ela teve suas simpatias por mim, não é?”. Marcela reafirmou que o ex-presidente foi o primeiro e único namorado. “Namoramos oito meses”, disse ela, que tem o nome do amado tatuado na nuca. Casaram-se em 26 de julho de 2003. Marcela tinha completado 20 anos dois meses antes; Temer faria 63 dois meses depois.

Mas, se existia encantamento com a formosura de Marcela, havia também estranhamento, quase na mesma medida. Cartunistas se fartaram ao retratar a belíssima moça ao lado do “vampiro”, figura com a qual o ex-presidente é frequentemente comparado. Um homem bem mais velho, 43 anos a mais que Marcela, bem mais baixo e imensuravelmente mais feio. Marcela foi Miss Paulínia e ficou em segundo lugar num concurso de Miss São Paulo. Teve uma rápida experiência profissional como recepcionista. Além da irmã Fernanda, que falou sobre seu recato à “Veja”, tem um irmão mais velho, Karlo.

Marcela formou-se em direito na Fadisp, Faculdade Autônoma de Direito, instituição “com 18 anos de tradição” e que, informa em seu site, “integra o Grupo José Alves (GJA), com tradição e longa experiência de atuação em diversos segmentos do mercado nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.” Mas não chegou a fazer o exame da OAB para exercer a profissão, porque Michelzinho nasceu em 2008, ano em que ela se formou.

Uma vez no cargo de primeira-dama, retomou uma prática de mulheres de presidentes, deixada para trás por Ruth, que criara uma nova abordagem para as questões sociais, e por Marisa Leticia, que não quis se envolver com trabalho relacionado à Presidência: o assistencialismo. Foi nomeada embaixadora do programa Criança Feliz.

Em abril de 2016, antes de se tomar primeira-dama, Marcela foi chantageada por Silvonei José de Jesus Souza, que teria clonado seu celular e pedido R$ 300 mil para não divulgar uma conversa dela com o irmão, na qual se referiam a um marqueteiro do então vice-presidente. Dizia-se que o hacker pediu dinheiro para não revelar fotos íntimas de Marcela. A Polícia Civil de São Paulo, na época chefiada pelo atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que se tornaria ministro da Justiça de Temer, criou uma força-tarefa para prender o hacker. Em fevereiro de 2017, ele foi condenado a cinco anos e 11 meses de prisão por estelionato e extorsão. Silvonei obteve liberdade condicional em maio de 2018, após cumprir um terço da pena.

A passagem de Marcela pelo cargo de primeira-dama foi discretíssima, à parte o alvoroço causado por sua beleza. Mas um gesto seu arrancaria interjeições de ternura da plateia. Em abril de 2018, pulou de roupa e tudo no lago do Palácio da Alvorada para salvar o cãozinho Picoly, da raça jack russel, que entrou na água para perseguir patos e não conseguia sair. Uma agente do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que acompanhava o passeio da primeira-dama com o filho Michelzinho pelos jardins da residência oficial e não foi capaz de salvar Picoly, acabou sendo retirada da segurança pessoal de Marcela. O amor por cães não era novidade. Em 2011, quando a revista “TPM” entrevistou Marcela, ela estava muito entristecida com o câncer terminal de Bandy, da raça bernesse.

No livro de poesia que Michel Temer lançou em 2012, “Anônima intimidade”, um dos poemas, “Vermelho”, faz referência explícita a um momento de amor do casal. Ao comentar a abertura da Olimpíada do Rio, em 2016, o humorista inglês John Oliver, que apresenta na TV americana o programa “Last week tonight with John Oliver”, declamou a tradução dos versos quentes: “De vermelho / Flamejante / Labaredas de fogo / Olhos brilhantes / Que sorriem / Com lábios rubros / Incêndios / Tomam conta de mim / Minha mente / Minha alma / Tudo meu / Em brasas / Meu corpo / Incendiado / Consumido / Dissolvido / Finalmente / Restam cinzas / Que espalho na cama / Para dormir”. E concluiu: deve ser por isso que Temer foi vaiado no evento...

Dias duros chegariam para Marcela com a prisão do ex-presidente, denunciado pela Lava-Jato. Em março de 2019, ela teve o celular e um iPad apreendidos pela Polícia Federal quando seu marido foi levado de casa, em São Paulo, para a sede da Federal no Rio. Contratou advogados para pedir ao juiz Marcelo Bretãs, da Lava-Jato no Rio, que devolvesse seus pertences, inclusive um talão de cheques, já que ela não era investigada. E conseguiu. O presidente voltaria a ser preso em maio, por pouco tempo. Ela se manteve em casa, longe de holofotes. A exemplo dos memes na época de sua libertação, o presidente mais impopular da Nova República, por enquanto, pôde voltar a dormir de conchinha com sua bela, no recato do lar.

📚SUGESTÃO DE ARTIGOS PARA VOCÊ:

🔍 Publicação: Uikisearch
Referências: GUEDES, Ciça; MELO, Murilo Fiuza de. Todas as mulheres dos presidentes: a história pouco conhecida das primeiras-damas do Brasil desde o início da República. Rio de Janeiro, RJ: Máquina de Livros, 2019.

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MARISA LETÍCIA ROCCO CASA

🎯 A primeira representante da classe operária a se tornar primeira-dama, a “primeira-companheira”.

Marisa Leticia tinha 9 anos quando foi trabalhar como babá dos filhos de Jaime Portinari, sobrinho do pintor Cândido Portinari, dentista em São Bernardo do Campo, na Região Metropolitana de São Paulo. O município para onde imigraram no início do século XIX as famílias italianas Rocco e Casa, antepassados daquela menina-babá, foi o berço do sindicalismo moderno no país, onde surgiu seu mais importante líder, Luiz Inácio Lula da Silva. A família de Lula se mudou para São Paulo em meados do século XX, fugindo da fome no Nordeste. Iriam passar 43 anos juntos, até a morte de Marisa Leticia, que sofreu um derrame em 24 de janeiro de 2017 e faleceu dez dias depois. Mas, até que se encontrassem na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, ambos passariam por tragédias pessoais que marcaram suas vidas, mas serviram para aproximá-los.

A menina de cabelos loiros e olhos verdes era filha de Antonio João Casa e Regina Rocco, agricultores cujas famílias se instalaram na área rural de São Bernardo do Campo. Antonio e Regina tiveram 15 filhos. Três morreram no parto. O casal deixou a roça quando Marisa Leticia tinha 5 anos e se mudou para o Centro da cidade, onde os irmãos já trabalhavam como operários. A menina não estudou, como contou ao jornal “O Globo” sua irmã, Teresa Otília Casa. “Para o meu pai, os filhos não podiam estudar, e as filhas só podiam fazer até o quarto ano primário. Foi isso que nós estudamos.”

Com 14 anos, a italianinha deixou de ser babá e se tornou operária da fábrica de doces Dulcora, que produzia o famoso drops campeão de vendas nas décadas de 1960 e 1970. O prédio da empresa chamava a atenção na Via Anchieta — que liga a cidade de São Paulo à Baixada Santista, no litoral sul do estado, passando por São Bernardo do Campo — pelos imensos drops usados para formar o logotipo da marca. Com 19 anos, Marisa Leticia deixou o emprego para se casar.

O primeiro marido da jovem operária era metalúrgico. Marcos Cláudio dos Santos também tinha 19 anos quando se casou com Marisa Leticia, que engravidou na lua de mel. Com a mulher em casa, esperando o primeiro filho, ele passou a dirigir o táxi do pai, Cândido dos Santos, depois do turno na fábrica. Estavam casados há seis meses quando, num assalto, Marcos teve o dinheiro da féria, seu relógio e a carteira roubados. Os criminosos atiraram. O rapaz morreu na hora. Os três meses finais da gestação da viúva Marisa Leticia prosseguiram à base de remédios para não perder o filho, que nasceu saudável e foi batizado com o nome do pai.

Lula, que era então operário das Indústrias Villarcs, havia perdido a mulher, Lourdes, vítima de hepatite, em maio de 1971. Ela estava grávida, e o filho que gestava morreu também. Tomara-se, em 1972, primeiro secretário do departamento jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos. Em 1973, vencera o luto e estava “vivendo inúmeras aventuras amorosas”. Como voltava tarde para casa, tinha que pegar táxi. Tornou-se freguês do motorista de um Fusquinha, que um dia lhe contou que perdera o filho único, um metalúrgico que dirigia o táxi depois do expediente na fábrica, assassinado num assalto. E mostrou-lhe a foto da nora.
Casada com Luiz Inácio Lula da Silva
MARISA LETÍCIA ROCCO CASA - nome de
solteira.
Nascimento: 7 de abril de 1950
Morte: 3 de fevereiro de 2017
Casada com Luiz Inácio Lula da Silva
Primeira-dama de 1º de janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2010

No dia seguinte, ao chegar ao sindicato, Lula pediu que, se alguma jovem viúva fosse ao departamento jurídico, ele deveria ser avisado. A moça não tardou a procurar a instituição para conseguir o carimbo necessário à liberação da pensão do marido. Lula deu um jeito de fazer com que Marisa Leticia voltasse outras vezes, até conseguir seu telefone. Passou a ligar para a casa da moça insistentemente. Descobriu o endereço dela e, uma noite, foi até lá. “Marisa estava esperando seu namoradinho ir apanhá-la e ambos chegaram juntos. Sem cerimônia, Lula dispensou o moço e avisou à mãe de Marisa que ele, Luiz Inácio da Silva, era o namorado dela”.

Maria Leticia foi apresentada à família de Lula num churrasco na Praia Grande, então uma praia popular da Baixada Santista, que também abrigava várias colônias de férias de operários e outros trabalhadores. Dona Lindu, mãe de Lula, aprovou a escolha. Do momento em que botou o namorado de Marisa Leticia para escanteio até o casamento, em 25 de maio de 1974, passaram-se sete meses. A cerimônia foi na Capela de Santo Antônio, que um dos avós da noiva havia construído no Bairro dos Casa, e a lua de mel, em Campos do Jordão. Lula já era primeiro-secretário do sindicato.

No ano seguinte, o marido de Marisa Leticia foi eleito presidente da entidade. Começava ali a carreira de líder que o levaria à Presidência do país. O primogênito do casal, Fábio Luís, já tinha nascido no dia da posse de Lula no sindicato, que reuniu autoridades, entre elas o governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins. O casal criava também o menino de Marisa, Marcos, que, ao completar 10 anos, pediu ao padrasto que o adotasse como filho.

O sindicato que Lula presidiria mais uma vez, reeleito em 1978, fora criado em 1933. Na época, representava os metalúrgicos de todo o ABC: Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano. Com a instalação da indústria automobilística na região, em 1959, cresceu em importância e representatividade. Formou-se ali a elite do operariado, que iria desempenhar importante papel na retomada da democracia, por meio da luta contra o arrocho salarial que se seguiu ao Milagre Econômico do governo Médici. Em 1976, os metalúrgicos marcariam presença no cenário político com uma grande manifestação no 1° de Maio. No ano seguinte, os metalúrgicos do ABC fizeram uma campanha por reposição salarial de 34,1%, porque o próprio governo admitira que manipulara os índices e os salários perderam poder de compra com reajustes menores.

O ano de 1978 assistiria ao ressurgimento das greves de operários na região. Novamente, uma grande manifestação em 1° de Maio deixaria os militares de orelha em pé. Onze dias depois, os operários da Scania entraram na fábrica, bateram o cartão e cruzaram os braços. Eles tinham recebido o comprovante de pagamento com o reajuste determinado pelos militares e que fora aceito pela federação dos metalúrgicos, em mãos de dirigentes submissos ao governo, os pelegos. Começava a greve que iria mudar a história do sindicalismo e da luta política no país. O movimento se espalhou pelo ABC e outras regiões. Foram centenas de paralisações que desafiavam a lei de greve e a política econômica da ditadura.

Em 1979, o movimento cresceu ainda mais. Uma assembleia convocada para o estádio de futebol da cidade, de Vila Euclides, lotou o espaço. Sem sistema de som, as falas de Lula e demais dirigentes eram repetidas pelos operários mais próximos, pelos que estavam em seguida, e assim sucessivamente, para que, em ondas, pudessem ser ouvidas. Dias depois, começou a greve geral de metalúrgicos que acabou arrancando um acordo melhor das montadoras. “As fábricas pararam em São Bernardo, Santo André, São Caetano e depois em São José dos Campos e Jundiaí. No quarto dia já eram 170 mil os grevistas. A cada dia a Polícia Militar aumentava a repressão, espancando, prendendo, mas a greve não cedia. Nas negociações, os representantes dos empresários não ofereciam nada de concreto. Em assembleias lotadas, os trabalhadores decidiam continuar parados.”

No nono dia de greve, a ditadura decretou a intervenção nos sindicatos de São Bernardo, Santo André e São Caetano. Mas a greve ainda resistiria. Foram 41 dias de paralisação. A diretoria que Lula encabeçava foi cassada. A mulher de Lula, além dos problemas que vivia com a repressão ao movimento dos metalúrgicos, reviveu a dor da perda do primeiro marido. O pai dele, Cândido, foi assassinado da mesma forma que o filho: num assalto ao táxi que ainda dirigia.

Com a cassação da diretoria do sindicato, Marisa Leticia viu a casa em que morava com Lula e os filhos transformada no quartel-general do movimento. A polícia passou a vigiar o imóvel, comprado através do BNH, o Banco Nacional de Habitação, que construía moradias populares. Marisa Leticia temia pela vida das crianças — além de Marcos Cláudio e Fábio Luís, já tinham outros dois filhos, Sandro e Luís Cláudio — e também pela do marido. E pela sua sorte. O jornalista Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências do II Exército, em São Paulo, em 1975, e sua mulher ficara sozinha com os filhos para criar. O mesmo havia acontecido ao também operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 1976, morto sob tortura nas mãos dos militares. Era casado e tinha duas filhas.

Na madrugada do dia 19 de abril de 1980, os temores de Marisa Leticia se confirmaram: a polícia foi à sua casa para prender Lula. Era o 17° dia de mais uma greve que ele liderava. Lula foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional (LSN) e ficou 31 dias na cadeia. Marisa Leticia levava os filhos ao Dops para visitá-lo. Ela ajudou a organizar e liderou uma passeata de mães, mulheres e filhos de sindicalistas presos pelo regime. Solto em 20 de maio, Lula — com sindicalistas, trabalhadores de outras áreas, estudantes e intelectuais — fundaria naquele mesmo ano o Partido dos Trabalhadores. Maria Leticia lembrou que tinha guardado em casa, há tempos, um corte de tecido vermelho. Aplicou nele uma estrela branca de cinco pontas e o nome do novo partido. Era a primeira bandeira do PT. Essa história foi revelada por ela ao site da campanha do marido, em 2006.

Em 1981, Lula foi julgado pela Justiça Militar por seu envolvimento nas greves do ABC em 1978 e 1979, e condenado com outros dez sindicalistas, por “incitamento à desobediência coletiva às leis” com base na Lei de Segurança Nacional. A pena era de três anos e seis meses de reclusão, mas puderam recorrer em liberdade. Foram muitas as manifestações pela absolvição dos sindicalistas. Em 1981 houve um segundo julgamento. “Os seguranças não vetaram o uso de cartazes pelos manifestantes presentes. (...) Acompanharam o processo o senador Teotônio Vilela, o então suplente de senador Fernando Henrique Cardoso, o procurador Hélio Bicudo, o bispo de Santo André, Dom Cláudio Hummes e o bispo auxiliar da Abadia de Westminster (da Inglaterrra), Dom Victor Guazelli”.

O caso foi ao Supremo Tribunal Militar. Em abril de 1982, Marisa Leticia acompanhou Lula a Brasília. Era a primeira vez do casal na capital federal. A pompa e a ostentação a assustaram. “Marisa foi objetiva e direta: ‘Lula, vamos parar com tudo isso, esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca’. A corte decidiu, por maioria de votos (9 a 3), encaminhar o caso à Justiça Federal para ser julgado sob a Lei de Greve. (...) A ação foi prescrita antes de chegar a julgamento na Justiça Federal.”

Marisa pouco apareceu nas campanhas de 1982, quando Lula concorreu ao governo de São Paulo, e em 1986, ao ser eleito deputado federal. Na primeira campanha presidencial, em 1989, que ele perdeu para Collor e o relacionamento com Miriam Cordeiro veio à tona, Marisa também não teve participação ativa, assim como nas eleições à Presidência de 1994 e 1998. Mas foi importante na campanha de 2002. “Quando Lula despontava como favorito na eleição presidencial, Marisa passou por uma transformação no visual. Mudou o corte de cabelo e a maquiagem. Sofisticou o guarda-roupa e fez um lifting facial. Tudo para acompanhar as mudanças do marido, que passou a usar ternos bem cortados e a barba aparada.”

Seus amigos a descreviam como uma mulher que vivia para a família, era vaidosa e tinha muito ciúme de Lula. Não sem motivo. Lula teria mantido um caso extraconjugal desde o início da 1990 com Rosemary Noronha. Os dois se conheceram numa agência bancária no Centro de São Paulo, onde ela trabalhava. Segundo a irmã, Sônia Nóvoa, Lula levava a amante para suas viagens ao exterior, inclusive quando assumiu a Presidência da República. “Ela me chamava para os jantares românticos com o Lula. E eu ia. Eu até consegui convites para shows do Roberto Carlos e do Roupa Nova. Só pude assistir porque minha irmã me convidava”, contou Sônia em entrevista à revista “IstoÉ”, em janeiro de 2019.

Em 2002, Lula nomeou Rosemary assessora de gabinete no escritório da Presidência em São Paulo. Quatro anos depois, ele a promoveu à chefia do gabinete. Foi quando Marisa Leticia desconfiou do relacionamento. A revista, Sônia disse que a primeira-dama nunca gostou da assessora. Rosemary, no entanto, só foi afastada do cargo em 2013, após ser indiciada pela Polícia Federal nos crimes de formação de quadrilha, tráfico de influência e corrupção, resultado da operação Porto Seguro, deflagrada em 2012. A ação investigava um esquema de favorecimento a empresários em nomeações para cargos públicos. Em 2014, a Justiça a transformou em ré e, desde então, a família nunca mais teve notícias de Rosemary, segundo a irmã.

Marisa Leticia teve atuação discreta nos dois mandatos do marido, atuou nos bastidores. “Ao contrário de grande parte delas, (...) Marisa não se importa de ser chamada pelo pomposo título de primeira-dama. Filha de lavradores, gosta da terra e de plantas e vai sentir muito a falta do sítio, onde, nos fins de semana, costuma reunir a família. Como em toda família descendente de italianos, no sítio as tarefas são divididas: ela e o marido, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, cozinham, um dos filhos arruma a mesa e outros lavam os pratos. Por enquanto, Marisa quer continuar sendo mãe, mulher e companheira. (...) ‘Pretendo, se puder, me dividir entre Brasília, ajudando Lula, e São Paulo, cuidando dos netos’, afirma Marisa”, escreveu Jorge Bastos Moreno no jornal “O Globo” em reportagem de 3 de novembro de 2002, quando Lula foi eleito para seu primeiro governo.

Ao longo das duas gestões de Lula à frente do Executivo, Marisa não exerceu cargo filantrópico, mas mantinha uma sala ao lado do gabinete presidencial, no terceiro andar do Palácio do Planalto. O país tinha notícia dela principalmente nas viagens internacionais em que acompanhava o presidente. Como primeira-dama, ficou conhecida pelos churrascos de fim de semana e pelas festas juninas que organizava, nas quais aparecia a caráter ao lado do marido. Ela também foi criticada quando fez um canteiro de flores vermelhas reproduzindo a estrela do PT nos jardins do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto. Os canteiros foram removidos.

Quando Lula deixou o poder, esteve ao seu lado durante o tratamento contra o câncer a que ele se submeteu, em 2011. “Dizia-se, na época, que ela controlava quem podia e quem não podia visitá-lo, para evitar que se cansasse”.74 Marisa Leticia virou ré em uma ação penal da Operação Lava-Jato em dezembro de 2016, acusada de crime de lavagem de dinheiro ao lado do marido. De acordo com a denúncia, teria incentivado Lula a aceitar o apartamento triplex do Guarujá, que seria um presente da construtora OAS. A Lava-Jato também afirmara que Marisa Leticia teve ingerência na decoração do sítio de Atibaia, reformado por empreiteiras interessadas em negócios com a Petrobras.

Em depoimento ao então juiz Sérgio Moro, em 10 de maio de 2017, em Curitiba, o ex-presidente Lula atribuiu as decisões a respeito do apartamento triplex no Guarujá à ex-primeira-dama, já falecida. O petista havia negado ser dono do imóvel. “Eu ouvi falar desse apartamento em 2005, quando comprou, e fui voltar a ouvir falar do apartamento em 2013. Ninguém nunca conversou comigo. Eu não sabia que esse apartamento estava na OAS. Eu queria pedir uma coisa. E muito difícil para mim toda hora que o senhor cita a minha mulher sem ela poder estar aqui para se defender. Uma das causas que ela morreu foi a pressão que ela sofreu”, disse o ex-presidente.

Reportagem publicada pela revista “Época” de janeiro de 2017, quando Marisa teve o AVC, informava que a ex-primeira-dama “sabia havia alguns anos da existência do aneurisma (dilatação anormal de uma artéria), que provocou o acidente vascular cerebral hemorrágico”. Os médicos decidiram não operá-lo porque era pequeno. “Nos últimos meses, o aneurisma cresceu até atingir pouco menos de um centímetro. A consequência foi um sangramento discreto no lado esquerdo do cérebro.”

Marisa estava consciente quando foi levada para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Tinha recebido um primeiro atendimento no Hospital Assunção, em São Bernardo do Campo, com pressão arterial 18 por 12. Morreu dez dias depois, em 3 de fevereiro. Será sempre lembrada como a primeira representante da classe operária a se tornar primeira-dama, a “primeira-companheira”.


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🔍 Publicação: Uikisearch
Referências: GUEDES, Ciça; MELO, Murilo Fiuza de. Todas as mulheres dos presidentes: a história pouco conhecida das primeiras-damas do Brasil desde o início da República. Rio de Janeiro, RJ: Máquina de Livros, 2019.


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